Você já pensou se o Brasil que conhecemos hoje se desmontasse em 3 novos países? Este é um assunto bastante polêmico, mas tenho certeza de que muitos já pensaram nas possibilidades de dissolver a “indissolúvel República Federativa do Brasil”.
O foco deste relatório é estritamente econômico. Não pretendo abordar as questões regionais dos estados envolvidos, para não dar margem para interpretações racistas com meu estudo.
Sabemos que o hoje o Brasil é um gigante econômico dos países em desenvolvimento, com seu PIB equivalente a 2,1 trilhões de reais, distribuídos por seus 184 milhões de habitantes resultando num PIB per capita de R$ 11.669,79 (dados de 2005 - IBGE).
São números razoáveis, se a estrutura administrativa da política brasileira não fomentasse tanta desigualdade social. 33,9% desse PIB vem do estado de São Paulo, ao passo que outros estados mais fracos economicamente respondem por 0,7%, como é o caso das Alagoas, ou 0,1% do PIB, no caso de Roraima. No entanto, os 3 estados têm a mesma representatividade no senado: 3 senadores para cada estado. Além disso, a Câmara dos Deputados Federais parece não seguir a mesma desigualdade, mas gera absurdos equivalentes. De acordo com nossa obsoleta constituição, cada estado deve eleger um mínimo de 8 e um máximo de 70 deputados, de acordo com seu número de votos válidos. Se analisarmos a média de eleitores por deputado no Brasil, que é de 245.277, temos que o Rio Grande do Sul corresponde a esta média: 250.019, e responde por quase 7% do Produto Interno Bruto. São Paulo, que representa o maior número de eleitores, traz a média de 400.539 eleitores por deputado. Já Roraima traz a menor média: 29.199 eleitores por deputado. Ou seja, o voto de 1 cidadão de Roraima equivale ao voto de 13,7 cidadãos de São Paulo, na composição da Câmara dos Deputados Federais. E este é o retrato da desigualdade de nosso Congresso, que faz com que o direcionamento dos esforços do Executivo precise atravessar esse pântano de desigualdades para chegar no cidadão brasileiro.
Todos sabem que esta distribuição de renda é injusta. E que esse formato de Federação é um incentivo à corrupção, sobretudo nas áreas mais pobres, e que menos respondem pelo PIB do país. Já que não temos autonomia para cada unidade federativa, como funciona nos Estados Unidos, todos estamos submetidos às mesmas regras de um Estado centralizador que é o Brasil.
E se separássemos o país, com base em sentimentos de emancipação já existentes? Como ficariam as coisas ?
A Guerra dos Farrapos marcou nossa história com a declaração de independência de dois novos países, a República Juliana (SC) e A República Rio Grandense (RS). Esse sentimento separatista ainda existe nos brasileiros no Sul do país. Se somássemos a representação econômica de cada um dos 3 estados sulistas, teríamos a seguinte situação:
- Rio Grande do Sul - PIB: 144,3 bilhões de reais; População: 10,6 milhões de habitantes.
- Santa Catarina - PIB: 85,3 bilhões de reais; População: 5,9 milhões de habitantes.
- Paraná - PIB: 126,6 bilhões de reais; População: 10,3 milhões de habitantes.
Juntando-se os 3 estados (que possuem suas similaridades sócio-econômicas) temos um país com a seguinte economia: PIB: 356,2 bilhões de reais; População: 26,8 milhões de habitantes; PIB per capita: R$13.291,04.
A Nova República Rio Grandense, ou República Farroupilha, ou República do Sul do Brasil, teria um aspecto semelhante ao de países vizinhos sul-americanos (Argentina e Chile no exemplo a seguir), e chegaria perto da economia de um país europeu de menor poderio econômico (Portugal ou países do leste europeu) . Vejamos o quadro comparativo:
- República do Sul do Brasil: PIB: 356,2 bilhões de reais; População: 26,8 milhões de habitantes; PIB per capita: R$13.291,04.
- Argentina: PIB: 364 bilhões de reais; População: 39,5 milhões de habitantes; PIB per capita: R$9.215,19.
- Chile: PIB: 229,2 bilhões de reais; População: 16,6 milhões de habitantes; PIB per capita: R$13.807,23.
- Portugal: PIB: 364 bilhões de reais; População: 10,6 milhões de habitantes; PIB per capita: R$34.339,62.
Argentina e Portugal possuem aproximadamente o mesmo PIB, mas essa riqueza dividida entre toda a população gera um PIB bem diferente, mostrando um abismo econômico entre os dois países. A Nova República teria uma distribuição de renda parecida com a do Chile, que é um dos países emergentes entre os chamados países em desenvolvimento.
Agora vamos desmontar esse Brasil varonil mais uma vez e fundarmos a República Paulista:
- São Paulo: PIB: 727 bilhões de reais; População: 40 milhões de habitantes; PIB per capita: R$18.175,00.
A República Paulista teria uma economia quase “escandinava”. Vamos comparar com a Suécia:
- Suécia: PIB: 711 bilhões de reais; População: 9,1 milhões de habitantes; PIB per capita: R$78.131,87.
Nota-se que em riqueza absoluta, São Paulo supera todos estes países que comparamos, inclusive a Suécia. Mas, pela distribuição de renda, ganha-se muito mais na Suécia do que na recém fundada República Paulista.
E o resto do Brasil, como fica? Se excluírmos São Paulo e o Sul, o restante do Brasil, cuja economia seria encabeçada por Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia, a República “do que sobrou do Brasil” teria a seguinte configuração:
- Resto do Brasil: PIB: 1 trilhão de reais; População: 117,2 milhões de habitantes; PIB per capita: R$9.078,84.
Ou seja, ainda assim seria um país com distribuição de renda equivalente ao da Argentina. Mas, se somássemos o poderio econômico das duas novas Repúblicas, e fundássemos a República Paulista-Rio Grandense, teríamos uma economia superior à do restante do “outro Brasil”:
- São Paulo + Sul: PIB: 1,1 trilhões de reais; População: 66,8 milhões de habitantes; PIB per capita: R$16.215,57.
E então? Convencidos de que “Não és tu Brasil a pátria amada”? Criou-se um sentimento de identidade brasileira que não existe em nossos corações na mesma forma em todos os lugares. Há vários “Brasis” aqui dentro, e ainda possuímos as mesmas desigualdades da época do Império Brasileiro. E como eu sempre digo, todo império tem seu tempo contado. Talvez um dia essa brincadeira matemática que você leu aqui se torne realidade e então eu teria sido um profeta mal compreendido em meu próprio tempo.
Vamos desmontar o Brasil.
Davi - 19/03/2008
Fontes: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2005). Almanaque Abril 2008. Cotação do dólar americano (2007): R$1,99 para conversão do PIB (2005) dos países citados.